Isso fez com que todo o rosto dela e o lado esquerdo do couro cabeludo fossem queimados, deixando o rosto tão assustador quanto o de um fantasma, e as duas mãos também foram corroídas pelos reagentes, ficando em carne viva.
Os braços queimados afetaram a destreza das mãos, Letícia foi demitida pelo mesquinho dono da fábrica têxtil e, no fim, teve que ir trabalhar em uma mina de carvão, um trabalho ainda mais duro e exaustivo.
Não havia diferença essencial, era apenas sair de uma fábrica cheia de fibras de algodão e poeira para outra cheia de poeira de carvão ainda mais perigosa; em ambos os lados, o trabalho era um tormento para o corpo.
Por ter menos força do que os outros operários homens, Letícia precisava gastar mais tempo para terminar o trabalho e recebia um salário semanal ainda menor, só para não ser demitida.
E a maior parte do dinheiro que Letícia ganhava — incluindo a indenização pelas queimaduras causadas pelos reagentes — era usada para sustentar os estudos de Carlos. Durante esses três anos de escola, Carlos não decepcionou as expectativas de Letícia, suas notas ficaram cada vez melhores, e parecia prestes a trilhar um caminho promissor.
Ela esperava que Carlos continuasse estudando, que no futuro se tornasse advogada ou médica, rompendo de vez com a vida que levavam agora — esse sempre foi o desejo de Letícia.
Mas Carlos claramente não planejava assim.
Ela não pretendia prestar o exame de admissão, nem pedir cartas de recomendação; como alguém com um plano bem definido, Carlos não achava que aprofundar os estudos fosse um caminho viável para ela.
As taxas e despesas anuais da Faculdade da Universidade de Ansu chegavam a quase cento e quarenta libras de Su.
Mesmo que a irmã Letícia trabalhasse o máximo possível, sem comer nem beber durante um ano inteiro, só conseguiria juntar cerca de cinquenta libras de Su.
Sem falar no altíssimo custo de vida da capital Ansu — para elas, entrar na universidade era um fardo impossível de suportar.
Além do dinheiro, havia ainda todos os perigos, explícitos e ocultos, e olhares mal-intencionados que as vigiavam de perto nesse bairro pobre — como aquele delinquente André que, por algum motivo, passou a importunar Carlos há meio ano.
O que poderia mudar mais radicalmente a vida e a classe social dela agora não era passar na universidade e estudar direito por quatro ou cinco anos, mas sim, depois de se formar, ir direto ao colégio pedir uma carta de recomendação para a delegacia de polícia de Berun, e assim sair logo desse bairro cheio de pobreza e perigo.